Onde o vinho desafia o Atlântico.
Produzir vinho no meio do Oceano Atlântico nunca foi uma tarefa simples. A cerca de 1.600 quilômetros da costa continental portuguesa, as nove ilhas dos Açores formam um território marcado pela presença constante do mar, por terrenos pedregosos e pela força dos ventos. Ainda assim, a viticultura encontrou uma maneira de criar raízes nesse cenário desde o povoamento das ilhas, em meados do século XV.
A tradição teria começado com os frades franciscanos. Depois de se estabelecerem no arquipélago, eles precisavam importar o vinho utilizado nas celebrações religiosas. Ao perceberem semelhanças climáticas com a Sicília, trouxeram de lá mudas de Verdelho. A adaptação foi bem-sucedida e, com o tempo, os vinhos açorianos chegaram a ser exportados para o norte da Europa.
Mas cultivar videiras tão próximas do oceano exigiu engenhosidade. Na Ilha do Pico, as plantas crescem em terrenos de origem vulcânica, lançando suas raízes pelas fendas das rochas. Para protegê-las dos fortes ventos atlânticos e do excesso de sal, os viticultores ergueram pequenos muros de pedra vulcânica negra, formando os tradicionais currais. O resultado é uma paisagem tão singular que a cultura da vinha da ilha foi reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO.
É nesse território extremo que sobrevivem algumas das castas mais particulares de Portugal. Entre elas está a Terrantez do Pico, variedade autóctone e exclusiva dos Açores, cultivada em solos vulcânicos principalmente na Ilha do Pico. Uma uva profundamente ligada ao lugar onde nasceu e que ajuda a preservar uma viticultura moldada, durante séculos, pela necessidade de conviver com as forças da natureza.
Nos Açores, portanto, a paisagem não é apenas cenário. Pedra, vento e oceano fazem parte de uma história iniciada há mais de cinco séculos, na qual cada vinha representa a persistência do homem em cultivar justamente onde a natureza parecia impor seus maiores limites.
Azores Wine Company Terrantez do Pico 2021 — AD 95 pts
António Maçanita, Açores, Portugal.
Branco elaborado exclusivamente a partir de uvas Terrantez do Pico (casta autóctone e exclusiva das ilhas dos Açores), cultivadas em solos vulcânicos na ilha do Pico e uma pequena parte em São Miguel, com fermentação e estágio de 10 meses em contato com as borras finas, sendo 70% em cubas de aço inox e 30% em barricas usadas de carvalho. Austero nos aromas e nos sabores, mostra notas florais e de ervas envolvendo suas frutas brancas e cítricas, tudo apoiado por pulsante acidez e textura tensa e cremosa. Fluido e sem nenhuma concessão ao dulçor, tem final vertical e persistente, com toques cítricos, redutivos, salinos, de erva mate e de umami.
Este exemplar recebeu notáveis AD 95 pts pela Revista ADEGA.
Saúde! 🍷
Equipe ADEGA Online

